Página Principal Contato

body

 Menu Cidade da Guanabara

As Megalópolis Brasileiras

 Rio de Janeiro & Os Cariocas

 Frases, no mínimo, interessantes são formuladas com respeito aos Cariocas, e ao que seria ser Carioca, do tipo: -“Sou mais Carioca que os naturais da Cidade do Rio de Janeiro.”; -“Onde estão os Cariocas?” -“Conheço mais o Rio do que os próprios Cariocas.” Etc. Acontece que o Carioca é sobrevivente de várias intervenções externas em suas idiossincrasias com intuito de civilizá-lo, educá-lo, saneá-lo, modernizá-lo etc. É inegável reconhecer a necessidade da sua evolução e melhorias, o que é mais que bem vindo. Mas, o mais impressionante de tudo, e é o que faz o Carioca um ser especial, é a forma irreverente, interativa e elegantemente anárquica que suporta estas intervenções, subvertendo-as ao seu favor e envolvendo seus interventores num manto sedutor e alegre, chamado: “Carioquice”.

  O objetivo deste projeto não pode ser considerado uma tentativa; não é mais uma ação para elevar a auto estima do Carioca; não é uma iniciativa de resgate da cidadania Carioca; não é algo passageiro... é muito mais que isso, é um tributo a alma Carioca, é como um daqueles monumentos que marcam uma civilização e uma nação, como: O Cristo Redentor, A Passarela do Samba, O Maracanã, etc...

 Em linhas gerais, é como se este projeto fosse uma proposta de construir uma “Cidade de Encantamentos” dentro da cidade do Rio, para atração turística, para auto-afirmação da identidade Carioca, para desenvolvimento econômico, para geração de empregos, para homenagear as idiossincrasias Cariocas e para revitalização do centro do Rio.

 Falando dos críticos, em especial daqueles ditos “radicais de esquerda”, que podem usar aquele (já velho) argumento de que a burguesia (e sua cultura) é nefasta para a sociedade.

 Principalmente aqueles teóricos acadêmicos com suas idéias revolucionárias e libertárias para um mundo melhor, socialista e/ou comunista. Não que este autor seja um burguês nato (trata-se de um não abastado) ou um afeiçoado à burguesia. Não que este autor seja contra os socialistas e/ou comunistas. Nem um nem outro. Nem que sim nem que não, muito pelo contrário... Apenas, para não se perder o foco desta proposta, trata-se da história do Rio de Janeiro e de seu povo que, num determinado período, era fortemente burguês. Pode ser que continuemos a ser burgueses, mas, não estamos burgueses, ou, desejamos, intimamente, voltar a estar... Esse debate ideológico não leva a nada, só confunde ainda mais esta sociedade que necessita de identidade forte e de paz para viver. Ou seja... “Negar a própria história e negar a si mesmo”.

 Inicialmente, este texto vai aprofundar-se no mundo da arquitetura, principalmente naquela que norteou as mentes dos arquitetos das mais variadas partes do mundo e do Brasil nas três primeiras décadas do século XX. Isto, porque, as linhas arquitetônicas dos edifícios da cidade, em especial do centro do Rio, são os registros mais latentes daquilo que poderíamos chamar de “Alma Carioca”.

 Ora, com certeza, a arquitetura reflete os comportamentos e pensamentos de uma sociedade num determinado período de sua história. Logo, nada melhor que enaltecer este registro histórico disponível por toda cidade (o Rio é um verdadeiro museu a céu aberto sobre a alma Carioca) para que o Carioca reencontre o seu lugar de direito no seu valor como cidadão e na sua auto-estima. E, neste contexto, se destacam: a repercussão da Avenida Central na cultura da cidade do Rio de Janeiro, a influência da cultura francesa na sociedade Carioca e os desdobramentos da grande exposição Nacional de 1908 no ideário deste “povo moreno”.
 A Belle Époque Tropical
 Os primeiros anos de vida da avenida

 “O Rio Civiliza-se!”, é a expressão mais corrente após a conclusão da Avenida Central. Baniu-se, do centro da cidade a presença dos humildes permitindo que a burguesia ganhasse as ruas, caminhando por um novo Rio de Janeiro de rosto “europeizado”, de avenidas largas, belos jardins e chafarizes com seus desfiles carnavalescos civilizados; sem os grosseiros modos do Zé Pereira, onde grandes personalidades desfilam e as mulheres começam a ganhar sua liberdade.

 A nova configuração dos terrenos ao longo da Avenida permitiu a construção de grandes edifícios, e, diferente do que aconteceu nas reformas de Paris, todos tinham cunho estritamente comerciais. A predominância de grandes lojas afastou definitivamente os pequenos comerciantes, que não tinham como arcar com tais despesas, fazendo da avenida lugar exclusivo das grandes corporações: bancos, grandes lojas e magazines, jornais e sedes de grandes empresas, definindo um status social para esta área totalmente diferente de seu entorno, onde ainda predominava a antiga estrutura colonial.

 Os critérios utilizados para o desmembramento dos terrenos e o uso que acabou por dar-se a estes, definiram três setores distintos, porém integrados, na Avenida Central. O primeiro trecho, entre o largo da Prainha (atual Praça Mauá) até a Rua General Câmara (destruída com a abertura da Avenida Presidente Vargas), por sua proximidade com o Porto, foi ocupado principalmente pelo empresariado ligado ao comércio de importação e exportação e pelos bancos ligados a estas atividades. No trecho seguinte, que se estendia até a Rua São José, instalaram-se as principais atividades comerciais: as grandes confeitarias, lojas de vestuários, estabelecimentos bancários e os jornais representativos da época, tornando-se o ambiente ideal para o desfile das novidades e das ostentações da burguesia. O trecho final que se estendia até a Avenida Beira Mar, formado por grandes lotes das áreas ganhas com desmonte de parte do Morro do Castelo e de áreas remanescentes junto a Praça Ferreira Viana, se caracterizou por seu cunho institucional, com grandes edifícios públicos como o Teatro Municipal, a Escola Nacional de Belas Artes e o Palácio Monroe.

 Em seus 20 primeiros anos pouca coisa mudou, sofrendo apenas algumas intervenções pontuais, como a inauguração do Hotel Avenida em 1911 e a demolição do convento da Ajuda, no mesmo ano, que permitiu a criação da Praça Floriano e do que em alguns anos seria o maior polo de diversão da avenida.

 Com o porto desembarcando constantemente novidades, devidamente expostas na avenida, não é surpresa o cinema ter se instalado nesta desde a primeira década, pontuando com varias salas a Av. Central. Com a demolição do convento da Ajuda surge uma grande área, que nas mãos de Francisco Serrador, que adquirira um grande lote do terreno em 1917, tornaria-se a “Brodway” Carioca, com seus quatro arranha-céus, Capitólio, Gloria, Império e Odeon, inaugurados entre 1925 e 1926, formando a Cinelândia, grande centro de lazer para a população.

 Enquanto em uma ponta da avenida a modernidade é trazida pelas telas do cinema, na outra, no local onde outrora existiu o Liceu Literário Português, era erguido em 1929, ano do 1º Jubileu de Prata da avenida (em relação as obras realizadas 25 anos antes o jornalista Escrazinolle Dorial escrevia na revista a Semana:' Roma não se fez em um dia, diz um provérbio em louvor de paciência. Mas pode adiantar-se, a Av. Central se fez em dias, tal a rapidez no rasgar no demolir, no construir. '), o maior arranha-céu da América Latina, e o maior do mundo em estrutura de concreto armado, o edifício A Noite com seus 22 pavimentos.
 A casa, o bairro e a cidade.

 No início do século XX, empresários de sucesso, políticos e a aristocracia Carioca constróem seus edifícios e casas para a ostentação burguesa. Arquitetos renomados e de fama internacional deram sua contribuição cultural inserindo o ecletismo na arquitetura destes edifícios. Nesta época, a cidade colhia os frutos das grandes reformas pelas quais passou a partir de 1903. Ela havia evoluído rapidamente de uma cidade de aspecto ainda colonial para uma capital da Belle Époque, marcada fortemente por grandes intervenções urbanísticas que incluíam não só obras de engenharia e arquitetura, mas também iniciativas na área da saúde pública, que eliminaram as mazelas das quais sofria, entre elas a febre amarela, erradicada em 1909.

 As principais obras desse período foram à abertura da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco); a construção de um porto moderno com cais, avenidas e a regularização do canal do mangue; a urbanização da Avenida Beira-mar; e a construção de imponentes edifícios públicos como o Palácio Monroe (1906), a Escola Nacional de Belas Artes (1905), o Teatro Municipal (1909) e a Biblioteca Nacional (1910). Houve ainda a realização da Exposição Nacional em 1908, além de diversas obras que, executadas na mesma época, demonstram o vulto das transformações da cidade: abertura das avenidas Mem de Sá e Salvador de Sã, o alargamento de 12 ruas e a canalização de sete rios. Essas melhorias incluíram a construção do Mercado Novo (Mercado Municipal), o ajardinamento das avenidas, a arborização sistemática dos logradouros e a criação de normas edilícias procurando garantir a higiene e a salubridade nas construções. A administração do Prefeito Pereira Passos (1903-1906) providenciou também a retificação e a previsão de futuro alargamento de diversos logradouros pelo instrumento do recuo progressivo, ou seja, feito à medida que novas construções eram realizadas.

 Estes homens de sucesso fazem, assim, de suas edificações um elemento de "propaganda" e "promoção social". Fatos associados ao gênio político e comercial, imbuído de valores práticos que, provavelmente, influíram na definição do partido arquitetônico da sociedade Carioca, adotam o ecletismo para a casa abastada que passa a funcionar como um centro de consumo de uma imensa variedade de produtos, perdendo, assim, em grande parte, sua característica anterior de um local de produção. "A exemplo da moda ou das roupas que também faziam o homem, a casa passou a expressar solidez financeira." Com isso, materializa-se, então, o gosto pela acumulação e a casa burguesa passa a ser o repositório de todos os tipos de elementos, especialmente aqueles que geram o conforto, motor do consumo doméstico.

 Acumulam-se ainda peças evocativas de cultura, de padrão social e de prestigio, assim como todas as novidades ligadas às diversas invenções que se sucedem rapidamente.

 Essas aparecem, principalmente, quando surge a possibilidade de abastecimento da habitação com água, gás e posteriormente eletricidade, fato que vai mudar os hábitos da vida familiar e criar as raízes da casa moderna.

 Os passantes do Centro da Cidade percebem este cenário de uma época de ostentação e aristocracia. Época em que as edificações e as fachadas dos edifícios retratavam o grau de importância, reputação, fama, poder político e/ou poder econômico, dos cidadãos Cariocas. O ecletismo foi o conceito estético perfeito para retratar melhor esta busca pela “pompa e circunstância”. Além do ecletismo, a acumulação é, também, uma forma de ostentação e riqueza.

 O gosto pela acumulação se associa também ao ideário romântico, que, com a literatura, estimulou o público a “viajar” por épocas e lugares exóticos do passado; e ainda ao "... gosto e melhores meios de divulgação dos estudos históricos...” É nesse contexto de diversidade, acumulação e evocação que a arquitetura é entendida e apreciada. O local ainda existente e preservado que melhor resume estes conceitos é o restaurante Assirius no Teatro Municipal. Acumulação, volta ao passado de opulência babilônica, adoção do moderno simbolizado pelas belas fontes internas (água encanada e abundância de água eram sinônimo de riqueza tecnológica), ecletismo... Outro exemplo é o carnaval Carioca: Acumulação rica de fantasias, viagem ao passado dos enredos, modernas tecnologias em favor da teatralização carnavalesca... Enfim, ecletismo tem tudo a ver com a alma Carioca.

 A possibilidade de escolha, característica essencial do consumo, é levada para a edificação: com a disponibilidade de um enorme repertório de formas arquitetônicas, a burguesia em ascensão reforçou a tendência da atividade artística do período, que vem ao encontro da idéia da quantidade e da exuberância como símbolos de riqueza.
 O Ecletismo

 Empregado em várias áreas do conhecimento, o Ecletismo é um termo que na arquitetura significa a recomposição de estilos do passado, em especial, “misturando-se” elementos de diferentes períodos ou origens. Nasce na Europa em meados do século XVIII, mas, no Brasil, ele se manifesta a partir da metade do século XIX. Considerado o estilo que sucede ao Neoclássico, é empregado até as primeiras décadas do século XX. Ocorrem, contudo, exemplos tardios e simplificados do Ecletismo até a década de 1940.

 O Ecletismo não é homogêneo, pois se abrigam sob sua denominação diversas manifestações e tendências. Na Europa, ele esteve muitas vezes associado às teorias e ideologias quando a escolha de uma referência estilística do passado se baseava em criteriosos argumentos conceituais. Embora ocorressem alguns exemplos que justificassem a adoção de um ou mais estilos para a edificação, no Brasil "... a importação foi muito mais de formas prontas e modelos a copiar do que de idéias;” e as justificativas eram quase sempre superficiais e sem embasamento teórico.

 Cabe reproduzir um trecho do memorial do projeto vencedor do concurso realizado para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1904, citado por Giovanua Rosso dei Brenna: “Sendo a meu ver a architectura ultramoderna incompatível com a seriedade do edifício (...) dirigi minhas vistas para os estylos clássicos, não vacilando em escolher a Renascença francesa, que a meu ver é o estylo típico para os edifícios destinados a theatro. Não cingi-me, porém, ao rigor do Classicismo, indo procurar no mourisco uma variação para as cupolas...”

 Verifica-se que as justificativas se baseiam apenas em escolhas de caráter pessoal e não há explicação para o que é ultramoderno, por que o Renascimento francês seria o estilo mais adequado para teatros e por que usar o mourisco na composição. A partir daí, tudo é possível.

 Um outro exemplo desta diversidade (“mistura”) é o próprio Palácio do Catete, sede do Poder Executivo naquele início do século XX. Como era símbolo de poder político e econômico, o mourisco, característica marcante do Ecletismo, aparece num dos seus salões dos mais importantes daquele Palácio. Inclusive, o restaurante Assirius no Teatro Municipal, também outro exemplo marcante deste Ecletismo na sociedade Carioca, é uma “mistura” de estilos que remonta (viaja) o passado, numa evocação.
 O Rio de Janeiro é símbolo da República

 Após este breve relato introdutório das tendências arquitetônicas e artísticas introduzidas num país que queria sair do status de colonial agrícola, percebemos como as decisões governamentais do início do século XX foram importantes na enraizamento destas tendências culturais que formaram um ser único de alma especial: O Carioca.

 Resgatando os fatos históricos, ouso deduzir, que: tudo começou no centenário da Revolução Francesa em 1889. A França desejava esquecer a guilhotina e projetar para o mundo uma imagem futurista, e na época o ferro era o material da moda. Emile Nouguier e Maurice Koechlin, engenheiros da construtora Eiffel, apresentaram a Monsieur Eiffel a idéia de construir uma torre formada por quatro pilares e intercalada por plataformas metálicas. Já o arquiteto Stephen Souvestre sugeriu o grande salão envidraçado a ser criado na primeira plataforma. Arcos monumentais uniriam as colunas e a plataforma, funcionando como portão de entrada da Exibição Universal de Paris em 1889 e aumentando a estabilidade da obra.

 Esse sentimento por um monumentalismo arquitetônico na tentativa de estabelecer marcos entre épocas, era uma tendência ao longo daquele século. A arquitetura era naquela época o que a informática é hoje e, nesse contexto, assim como Bill Gates é considerado um gênio da informática, Gustave Eiffel, era o gênio da arquitetura. Um outro exemplo desse monumentalismo marcante é a própria Estátua da Liberdade, também, construída por Eiffel e doada pela França aos Estados Unidos da América.

 Ou seja, o governo do Presidente Rodrigues Alves (1902-1906), iniciou obras de grande envergadura na cidade do Rio de Janeiro, então capital Federal. Elas marcam "... o ponto culminante do ecletismo arquitetônico, que irá se estendendo por toda a cidade..." Duas destas obras podem ser consideradas influências relevantes na arquitetura do período: a abertura da Avenida Central, junto com as construções que ali foram erguidas, e a Exposição Nacional de 1908 (a exemplo da Exibição Universal de Paris em 1889), realizada na Urca, próximo à praia Vermelha. Ambas foram responsáveis pela afirmação arquitetônica e urbanística do Ecletismo e da Republica.
Rasgando a cidade colonial do final do século XIX caracterizada por ruas estreitas e por um elevado adensamento urbano, onde era freqüente a falta de condições de salubridade e higiene, a Avenida Central foi uma obra de vulto, que dominou o ideário Carioca com presença sistemática na imprensa desde o seu início em 1903, até a sua inauguração em 1906. Nessa data, havia alguns edifícios ainda por construir, entre eles o do Teatro Municipal, só finalizado em 1909.

 A repercussão da construção dos edifícios da Avenida Central na arquitetura da cidade é inegável não só pela criação de um concurso de fachadas, como pela atuação dos principais arquitetos, engenheiros e construtores do Rio e mesmo alguns de São Paulo, nos diversos projetos executados. Além de influenciar a adoção do estilo eclético, alguns exemplos da referida avenida atuaram, possivelmente, como um modelo específico para o uso do torreão coroado por cúpula no partido arquitetônico (referência aos castelos europeus, residência de nobres, com a colocação de um torreão). A utilização desse recurso para marcar as esquinas dos edifícios da avenida é encontrada em diversos exemplos, conforme pode-se constatar no album da Avenida Central, em especial:
•  prédio no 63-65-67, com volume sustentado por mísulas e cúpula bulbosa;
• prédio no 69-71-73-75-77, com as mesmas características do anterior, mas com volume de base quadrangular e não circular;
• prédio no 79-81, com volume de base quadrangular e arremate superior octogonal;
• prédio no 103-105, onde funcionou o Café Mourisco, com cúpula de perfil similar ao da mansão; e ainda: prédio no 107-109; E prédio no 107-109-121-123;
• prédio no 151-153; • prédio no 2-4-6;
• prédio no 8-10-2-14;
• prédio no 38-40-42;
• prédio no 128-130-132.

 O torreão uma forma de cúpula que se aproxima de um bulbo, usualmente utilizado na cultura islâmica, especialmente na região da antiga Pérsia. Os bulbos do islã são, entretanto, mais achatados e raramente apresentam proporção vertical. As lunetas foram muito utilizadas nos exemplos beaux-arts e estão presentes em várias pequenas cúpulas dos edifícios da Avenida Central, aparecendo com destaque nos torreões que flanqueiam a fachada do Teatro Municipal.
 Uma cidade de encantamento

 Em 1908, em comemoração ao centenário da abertura dos portos, foi realizada a Exposição Nacional, uma preparatória para a participação do Brasil na Exposição Internacional de Bruxelas de 1910. A exposição configurou-se como um evento grandioso, como uma verdadeira operação urbanística que abrangeu uma área de 182 mil metros quadrados e foi descrita pela imprensa da época como "uma cidade de encantamento".

 Analisando-se a arquitetura da Exposição, aqui e ali se percebem possíveis referências em destaque, como as escadas curvas monumentais com balaustradas no acesso do pavilhão do Estado da Bahia; as cúpulas "orientais" que ladeavam o pórtico do estranho pavilhão da Fábrica de Tecidos Bangu e as cúpulas quadrangulares nas extremidades do Palácio das Indústrias. De modo geral, também se pode afirmar que a arquitetura dos pavilhões da Exposição criou referências de exuberância, de alegoria, de caráter festivo, de licenciosidade no emprego da ornamentação arquitetônica e de "... soluções de hibridez e descomedimento...", abrindo caminho, assim, para soluções fantasiosas.

 É impressionante as coincidências nos aspectos culturais do Carioca com as características descritas nesta Exposição Nacional de 1908: “...exuberância, de alegoria, de caráter festivo, de licenciosidade no emprego da ornamentação arquitetônica e de... soluções de hibridez e descomedimento...". Em nada parece, para não se dizer o contrário, com o espírito Carioca. Vou arriscar uma conclusão, na certeza de que, se errar, errarei muito pouco, ou seja, como este período da Belle Époque (as 3 primeiras décadas do século XX), MOLDOU com tamanha competência e de forma tão marcante o espírito Carioca atual.

 O trecho central das fachadas de Mansões e grandes edifícios correspondem, no sistema compositivo do classicismo francês, a um pavilhão, ou seja, a um trecho do corpo do edifício que sobressai por sua altura, ornamentação ou pequenos avanços em relação ao plano geral da fachada. Os "pavilhões" situam-se nas laterais do edifício ou no seu centro, ou ainda, simultaneamente, em ambos os locais, e estão presentes na fachada frontal da antiga Escola Nacional de Belas Artes, na Avenida Central. Nas Mansões, contudo, o "pavilhão" compete formalmente com o torreão; assim, é utilizado de um modo redundante e fora do contexto para o qual foi criado.

 Em comparação com alguns dos pavilhões da Exposição de 1908, verifica-se que a arquitetura dos edifícios da Avenida Central é até mesmo contida e controlada. Naquele evento, exercitou-se com maior desenvoltura a composição de edifícios isolados e tratados como monumentos. Na avenida, excetuando-se os edifícios públicos, os demais estavam inseridos na malha urbana. Com algumas exceções, é claro, pois, recursos arquitetônicos foram adotados para expressão palaciana de imponência. Esses recursos, utilizado para conferir monumentalidade a alguns edifícios, criando uma espécie de pódio ou pedestal, está presente em alguns pavilhões da Exposição e também no Palácio Monroe, originalmente projetado para a Exposição Internacional de Saint-Louis, em 1904, depois reconstruído no Rio em 1906.

 O "fachadismo" da Avenida Central poder-se-ia dizer, assim, sobre a necessidade da fachada frontal apresentar um valor excessivamente superior àquele definido para as demais fachadas mais modestas, tanto na volumetria como na ornamentação. Tal fato revela a necessidade da arquitetura de “representar”, de exibir aos passantes sua riqueza e seu valor.

 Outra possível influência que não se pode deixar de citar é o "Pavilhão Mourisco", construído pelo município na praia de Botafogo, onde já estava sendo utilizado, em 1907, como um bar-restaurante. Sua impactante presença na paisagem, com cinco cúpulas douradas, tornou-se um marco visual para o local, até hoje denominado Mourisco, mesmo decorridos cerca de cinqüenta anos da sua demolição. Esse pavilhão deve ter funcionado como uma referência para a adoção de elementos de origem árabe nos projetos de casas e dependências da época (salão mourisco dentro do Palácio do Catete), especialmente no que se refere à cúpula do torreão.

 Não nos parece fundamental, como queria Adolfo Morales de los Rios Filho, explicar que o estilo do Pavilhão Mourisco da Praia de Botafogo "...era tipicamente neopersa, nada tendo de mourisco, como vulgar e erradamente foi denominado". Mesmo porque a palavra-chave que define a finalidade da ornamentação daquele período (ecletismo) é evocar e, para tal, não é necessária a fidelidade, mas sim a criatividade e, especialmente, o domínio compositivo na arquitetura.

 Como durante o período do Ecletismo era grande a circulação de modelos por meio das publicações e havia facilidade de acesso as estampas, fotografias e até mesmo a cartões-postais, as hipóteses de influência descritas servem apenas para ilustrar a confluência de formas e padrões na cidade. Tanto no caso da Avenida Central, como no da Exposição e do Pavilhão Mourisco, as influências sobre o projeto de casas e Mansões podem não ter sido necessariamente diretas, mas referem-se a um repertório de formas e de esquemas compositivos que alcançaram grande expressão no panorama cultural do Rio de Janeiro daquele período.
 De Exuberância, De Alegoria, De Caráter Festivo... Pura Fantasia.

 Este projeto não tem a intenção de ser um curso de arquitetura, mas, estas características arquitetônicas são abordadas com tamanha profundidade para que se enfatize a necessidade imperiosa de realização das obras aqui propostas: não por capricho de um governante, não para apologia à pompa e circunstância em detrimento dos milhares de brasileiros miseráveis, não para “aparecer” como diz uma gíria popular... mas, como uma homenagem didática e cultural, da própria identidade Carioca. Uma sociedade não consegue superar as dificuldades sem uma identidade cultural definida e forte. Uma sociedade não consegue prosperar, sem que a identidade do passado de seus ancestrais esteja preservada. Não há razão de existir, uma sociedade que não busca, em seu passado, as virtudes e a nobreza que a faz merecer existir. Uma sociedade que enfatiza os problemas e erros do passado além da necessidade de reflexão e correção, sucumbe em seu próprio masoquismo.

 Este projeto visa apenas a chamar atenção do que está aí, nas fachadas dos prédios, nas obras de arte espalhadas pela cidade, nas ruas, nos bairros, na cidade, no comportamento dos Cariocas, em suas festas, no Carnaval... Essas coisas estão aí, todos os dias, desde quando nascemos. Simplesmente, o Carioca é assim, a cidade é assim, as fachadas são assim, as festas são assim... tudo é como é, numa espontaneidade impressionante. Por exemplo, num desfile de uma única Escola de Samba, aproximadamente, 5 mil pessoas sabem, exatamente, o que fazer e tudo dá certo no maior espetáculo das terra. Porque só o Rio é assim? As características arquitetônicas dos edifícios daquela “Belle Époque” são o testemunho do nascedouro deste espírito. Por exemplo, em várias fachadas de mansões e edifícios suntuosos podemos encontrar características arquitetônicas, como, no balcão do trecho central, "mistura-se" o quadrifólio medieval do guarda-corpo com arcos de ferradura islâmica apoiados em colunas dupla. Esse conjunto é coroado por três frontões, um para cada arco, composição a priori estranha ao mundo islâmico e mesmo à arquitetura medieval ou classicizante do mundo ocidental. Assim, parece tratar-se de uma fantasia do autor. Todo o conjunto revela um descomedimento formal, um excesso. Parece ser algo desnecessário para a composição ou ao menos algo de uma exuberância desproporcional à única "função" ornamental que se pode supor para esse elemento; a simples marcação da aresta do volume, um pináculo portanto. Sua aparência não se relaciona ao vocabulário formal árabe ou ocidental. Ela parece ser uma necessidade alegórica e cenográfica dos pavilhões das exposições internacionais. No coroamento desse trecho da fachada, aparece uma cobertura abobadada, cuja origem provável se remete ao período "Luis XIII”. Contudo, a forte marcação das arestas revela uma influência direta da arquitetura beaux-arts, especialmente daquela empregada nos pavilhões das exposições como na cobertura do Petit Palais da Exposição Universal de Paris de 1900 ou do Pavilhão das Indústrias da Exposição Nacional de 1908 do Rio de Janeiro. Versões similares desse tipo de cobertura são encontradas também em alguns edifícios de maior valor da Avenida Central. É interessante observar que na cobertura da casa existe uma água-furtada. Embora o projeto original apresentasse uma simples janela de venezianas, na construção, a cobertura "francesa" recebeu uma abertura com arco de ferradura islâmico.

 A afirmação social era outro ponto tão importante para a burguesia, que a área de estar das residências passou a ser denominada, na França, de "zona de representação". Ela "transformou-se na parte mais bem cuidada, tanto do ponto de vista arquitetônico quanto decorativo. Era o local onde se exibiam a riqueza, a opulência e a educação da família e dos convivas...”

 Nesse universo cenográfico e evocativo em que algumas peças podiam fazer referências a viagens do proprietário ou ao passado da família, troféus, diplomas e títulos emoldurados representavam seu valor social e bordados e pinturas podiam demonstrar as prendas da mulher. O piano, por sua vez, era uma presença constante e símbolo de cultura e nível social. Ele era o "instrumento por excelência do século XIX", quando a música já surgia "...como a principal forma de diversão doméstica da família brasileira ...”

 Enquanto a decoração interna fazia referências diretas ao passado, simultaneamente às construções incorporavam as novas tecnologias, equipamentos e preocupações com as "condições de salubridade, de ventilação e luminosidade.” A disseminação desses princípios se dá rapidamente não só entre os arquitetos e construtores, mas também entre os clientes. Entretanto, a dicotomia entre o passado, de um lado, e o progresso e a modernidade, de outro, parece, a primeira vista, estranha aos olhos atuais. Naquele período, porém, ela não constituía um antagonismo. Quem explica bem esse fato é Annatereza Fabris ao comentar que:

 A volta ao passado é, paradoxalmente, o índice da modernidade do homem eclético: os revivais sucessivos que propõem a si próprio não são nem conservadores nem reacionários, (...) à volta ao passado não implica uma recuperação de valores, estando sujeita, ao contrário, aos ritmos da moda, ao padrão de consumo da produção industrial, cujos novos materiais integram-se em sua arquitetura fantasiosa.
 Da urgência na execução de uma “agenda positiva”

 Alguns eventos ocorridos no mês de março de 2005, aconteceram num daqueles momentos em que uma onda avassaladora parece invadir a normalidade da cidade do Rio tentando provocar o caos e dando munição para os especialistas catastrofistas de plantão anunciar, em tom profético, as desgraças da cidade num sado-masoquismo crônico, quase esquizofrênico.

 Uma frase do nosso sambista Sérgio Cabral numa ocasião em que se homenageava o tradicional Cordão do Bola Preta, nos faz refletir: “O Carioca continua o mesmo, contra o governo mas a favor da vida...” Mais uma irreverência Carioca para as crises do passado.

 Mas, nosso momento presente é único, peculiar... para não se dizer decisório. Acontece que, finalmente, os governantes deste estado Fluminense, realmente, promovem a fusão fazendo-a acontecer na prática. Hoje, todo o estado do Rio está envolvido numa onda de desenvolvimento sem precedentes. Diferentemente do passado em que as decisões e recursos se concentravam na região hoje da Cidade do Rio de Janeiro, porque, hoje, é mais difícil fazer oposição (ao interior). É como aquele filho mimado: tem tudo ao seu redor, mas, nunca está satisfeito. Hoje, esse menino mimado não tem mais tudo a seu redor, mas, ainda tem a mania de reclamar, protestar, difamar etc...

 Por isso esse momento é decisório. Melhor explicando... numa reportagem do O Globo em 2005, diz : “Não basta dizer basta !”, o movimento de artistas e políticos chega a uma conclusão que pode se concretizar. A de que se trata de um momento perigoso e que a partir daí, tudo se deteriora. Inclusive a produção artística, porque os poderes constituídos passam a pensar na arte a partir de suas influências e interesses: “Isso aqui pode virar o ovo da serpente, onde pode nascer uma aventura política perigosa, messiânica, fruto do descrédito absoluto em tudo.”

 O que se está falando aqui é algo acima da política. Algo acima de qualquer movimento ou instituição. É algo que faz uma sociedade ser ela mesma; algo que a define como povo; algo que define suas fronteiras; algo que define sua bandeira... Ou seja, estamos falando aqui, não do desenvolvimento a que o estado do Rio de Janeiro passa, mas, sim, da falta de desenvolvimento a que a Cidade do Rio passa, desde a década de 50 (amenizado pela fusão), que motivou a sociedade (empresários e políticos) a não resistir as mudanças geo-política (de capital para estado e fusão). A conseqüência disso é que, hoje, experimentamos uma possível falta de “identidade”.

 Um outro sinal importante (desta falta de identidade) foi o seminário da fusão realizado no auditório do jornal O Globo. Como se perdeu um tempo precioso em discussões, ofensas aos governantes da época, desrespeito ao estado, ofensas aos Cariocas em geral, etc...! A conclusão implícita (porque explicitamente nada se concluí) a que se chega num evento como esse é que o grande mal, consequentemente, a grande causa para a desgraça do Rio de Janeiro (cidade e estado) é o seu próprio povo que escolheu, escolhe e continuará escolhendo péssimos políticos (segundo esta minoria da elite intelectual) para representá-lo. Por isso estas insistentes teses de intervenções e desagregações, que permeiam os debates (principalmente quando ocorre qualquer crise), como se estivéssemos no início do século XX quando existiam interventores que “limparam” o Rio das pestes, doenças, sujeiras, atrasos, caos etc...porque nós, Cariocas, somos incompetentes para resolvermos nossos próprios problemas. Deve-se mudar a atitude quanto a estes pequenos movimentos, aqui e ali, que se sucedem esporadicamente (basta; Aspázia e sua iniciativa separatista etc), de passiva para ativa. Isto se faz necessário porque “água mole e pedra dura, tanto bate quanto fura”.
Da Alma Carioca

 Agora, para encerramos esta introdução e iniciarmos a explanação do projeto propriamente dito, descreverei alguns pontos que podem explicitar o que é esta “Alma Carioca” para, em seguida, percebemos a importância deste projeto: Reportagem do jornalista Ricardo Cravo Albim no jornal O Globo em comemoração ao aniversário da cidade do Rio de Janeiro entitulada “Dívidas com Villegagnon e Ismael” sobre dois momentos históricos importantes desta Cidade que, esquecidos, influenciam, inconscientemente, no comportamento dos Cariocas: Foi em 1555 que os franceses do almirante Nicolas Durand de Villegagnon (por este motivo é que a ilha ao lado do Aeroporto Santos Dumond sede da Escola Naval chama-se Ilha de Villegagnon) aportaram na verdejante baía da Guanabara. A partir da ilha de Coligny, estes franceses fundaram o primeiro núcleo civilizatório na cidade, chamado “França Antártica”. Mesmo após sua expulsão por estácio de Sá, as sementes francesas germinavam, silenciosamente, na cultura do Rio. Para deixar isso marcado (forjado) na alma Carioca é que o fragilizado D. João VI fugido da europa de Napoleão (de novo, a frança) convida (cede) a Missão Artística Francesa a vir ao Brasil (Rio de Janeiro) em 1816, onde obras maravilhosas estão expostas no Museu Nacional de Belas Artes. Outro fato desta história do Rio que defino como conseqüência do primeiro (aqui descrito) é a vida de Ismael Silva, criador da primeira agremiação (escola de samba) que seria o berço do “maior espetáculo da terra”: Escola de Samba Deixa Falar em 1927;

 Em 28 de fevereiro de 1984, um grupo de líderes empresariais reunidos na sede da Associação Comercial do Rio de Janeiro formulou e instituiu a Fundação Rio Congressos e Eventos - Rio Convention & Visitors Bureau. Em 1989, esta fundação e vários outros empresários promovem evento (patrocinado pelo consulado da França) comemorativo sobre o Bi-centenário da Revolução Francesa, onde uma réplica da Torre Eiffel foi construída no Aterro do Flamengo com cerca de 30 metros de altura, porém uma réplica perfeita!;

 Para as festividades de comemoração do bi-centenário da Revolução Francesa, em 1989, Dalal foi convidada, pela SR Produções, a apresentar um espetáculo de ballet para um público superior a 100 mil pessoas, no Aterro do Flamengo, contando com a participação especial de Jorge Donn - que dançou o magnífico bolero de Ravel com coreografia de Béjart;

 “Nunca saí do Brasil, mas já visitei a Torre Eiffel. Foi em 1989, no Aterro do Flamengo, durante as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, patrocinado pelo consulado da França. Para a festa ergueram esta réplica da famosa torre centenária, próxima ao obelisco de Mem de Sá. De noite, o bailarino Jorge Donn dançou o "Bolero" de Ravel aos pés da torre, como na cena final do filme "Retratos da Vida" (1981), de Claude Lelouch. O público lotou o Aterro.” Parafraseando Rick Blaine, nós sempre teremos pão francês no café-da-manhã. E croissants com camembert. Sem falar no abajour, no fecho eclair, peti-pour ...

 Desde que fundou a Associação de Ballet do Rio de Janeiro, Dalal Achcar revolucionou a história do ballet no Brasil. Seja aumentando a qualidade do ensino da dança, através da introdução dos métodos da Royal Academy of Dancing; seja emocionando multidões com espetáculos dançados pelo Ballet do Rio de Janeiro; ou com a concretização de projetos fundamentais para o Teatro Municipal, Dalal provou que é possível dar grandes saltos à cultura, mesmo mantendo os pés no chão.

 Não por acaso ocorreu este evento comemorativo sobre o Bi-centenário da Revolução Francesa próxima a Praia do Flamengo, pois, no passado, existia ali a França Antártica.

 Neste Carnaval de 2005, o Governo do Estado do Rio de Janeiro fez uma homenagem justíssima a uma organização que realmente deveria ser o cerne dos debates sobre mobilizações para valorização da cidade: A exposição sobre o Cordão do Bola Preta. Esta exposição mostra um momento feliz do passado desta sociedade aristocrática e burguesa acostumada ao “estresse” das decisões políticas e econômicas nacionais da primeira metade do século XX, em seus momentos de amor à vida e a alegria. Um dado importante da exposição que pode explicar porque o Carioca chama a todos de “mermão”. É que os sócios deste Cordão não eram tratados pelos títulos que ostentavam (e não eram poucos, pois, remanescentes nobres da monarquia dos braganças mais os políticos da antiga capital freqüentavam estes cordões) e sim como “irmãos”. Isto pode explicar, também, esta característica interessante da sociedade Carioca que é a necessidade de despojamento: Todos são iguais na praia, no Carnaval, na Rua, nas repartições, nos estádios etc... todos são “mermão”... É por isso que personalidades do mundo todo se sentem tão a vontade no Rio. Ou seja, todos, indistintamente, desejam desfrutar de sua privacidade, do anonimato e da humanidade... melhor explicando, todos, independentemente do título que ostentam ou das riquezas que possuem, desejam, pelo menos num momento de suas vidas, serem: “mermão”.

 Enxertos do antropólogo ROBERTO Da MATTA publicados no jornal O Globo na quarta-feira de cinzas deste carnaval de 2005:

 “...Depois porque, ao fim de três dias às voltas com fantasias, confetes e serpentinas, marcos do prazer nesse mundo, éramos lembrados da morte e do fim, pela presença dessas cinzas que nenhum adulto sabia explicar, justo no final de uma festividade dominada pela alegria.”

 “...Por que um mundo carnavalesco sem pecado tinha que acabar em cinzas era um grande mistério para todos nós.”

 “...Quanto mais "forte" - sagrada ou profana, reacionária ou revolucionária - for a mensagem, maior a preocupação em estabelecer claramente começos e fins. Se isso vale para o ritual em geral, é interessante constatar esse final tão cinzentamente dramático para essa festa de Momo que é até hoje vista no Brasil como algo inocente, incoerente e mais ou menos sem sentido.”

 “...Quando perguntávamos aos adultos porque o carnaval tinha que terminar em cinzas, não atinávamos com suas dimensões de revolta, com seu potencial de Ironia, com seu riso Bakhtiano, capaz de exorcizar a morte e relativizar o poder e o dinheiro. Não tínhamos ainda a capacidade de entender que a tradição carnavalesca tão bem estabelecida no Brasil, representava o que em outros países havia sido deslocado e liquidado pelas utopias burguesas revolucionárias que, ao fim e a cabo, propunham seriamente realizar com 'violência e através do poder arbitrário, aquilo que todo carnaval faz cantando: o ensaio de ver o mundo de cabeça pra baixo, com os poderosos da política ao lado dos produtores-contraventores da alegria, todos seduzidos pelo grande brilho de um momento que se ensaia como sendo de todos e de ninguém. Como um espaço de Igualdade corporal. Como um palco onde a arrogância do "você sabe com quem está falando ?" dos doutores, juizes, políticos, celebridades e ricaços do mundo diário, é empalada pelo talento, pela beleza, pela sexualidade e pela alegria dos pobres e dos marginais do mercado de trabalho. Todos ganhando, gastando e imoralmente desperdiçando ( para a razão prática, burguesa e utilitária) dinheiro e uma energia que nada tem a ver com o trabalho. Todos, eis outro ideal revolucionário, sendo simultaneamente atores e espectadores.”

 “...Como, pois, não terminar com cinzas essa experiência de mudança radical; fantasiosa e utópica que nós, brasileiros, fazemos todo ano sem saber ? Ou, quem sabe, sabendo mas deixando nas cinzas daquele esquecimento malandro e Ingênuo que tão bem nos caracteriza?”
 Tesouros!
 Revitalização do centro do Rio.

 O centro do Rio de Janeiro guarda a memória nacional do início deste país. Revitalizá-lo é mais que uma obrigação para uma sociedade que deseja almejar o patamar das mais desenvolvidas no mundo. Maltratado, descaracterizado e, as vezes, abandonado, o centro do Rio sofreu várias intervenções desde o primeiro reinado até o século XX, sempre com o pretexto de mudar para melhor, mais moderno, mais limpo, mais saudável etc... Os aterramentos da praia D. Manuel (hoje, a área que vai do III Comar no final da Av. Gen Justo até a estação das barcas na Pça XV, percorrendo a Av. Alfred Agache) durante a monarquia brasileira, a descaracterização da Pça D. Pedro II transformada em Pça XV na república velha, a demolição do Morro do Castelo durante toda 1º metade do século XX, a demolição do Mercado da Candelária no início da república, a descaracterização da área de passeio da Pça XV com a construção do viaduto da Perimetral durante o governo do Carlos Lacerda, a demolição do Mercado Municipal também graças ao Lacerda etc...enfim, sempre, a elite tinha aquela impressão de incômodo com a higiene e o que se chamava de atraso.

 A palavra "monumento" vem do latim monere, que significa "advertir". Monumento é então tudo que tem a função de lembrar, de advertir o passante sobre alguma coisa que desejamos que seja lembrada.

 O modo de fazer urbanismo apagando os estágios precedentes da construção da cidade encontra raízes no próprio desenvolvimento urbano do Brasil, onde cada fase procurou esconder as anteriores, num esforço consciente, rasgando inteiras porções de cidade consolidada para abrir avenidas e até desmontando morros, violentando a estrutura urbana existente. Cria-se assim uma cultura de desvalorização ou mesmo negação do passado, como se o considerássemos vergonhoso.

 É um país sem memória, que nunca sentiu a própria História como própria. Daí o descaso em relação ao passado, a facilidade com que se destroém seus testemunhos. E a eterna propaganda do país jovem, do país do futuro, em que tudo ainda está por ser feito. A regra geral então é reconstruir sempre, sem se preocupar com os traços cada vez mais escassos do passado.

 Uma cidade que apaga as fases precedentes se empobrece - a coexistência de vários períodos históricos permite uma leitura da estratificação, que enriquece a experiência sensorial do observador na cidade. E assim olhamos as fotografias do Rio do início do século e suspiramos pela Avenida Central, por Copacabana cheia de casas em um divertido estilo eclético e por outros recantos da cidade já desaparecidos. Hoje é necessário ir a Paris para ver algo parecido, pois do que tivemos nas mãos já não sobra quase nada. E se por um lado o brasileiro não se preocupa em conhecer e preservar o que há de "histórico" e bonito no próprio país, por outro está sempre pronto a consumir avidamente a História alheia - como se a História fosse algo que se fez do outro lado do mar há seiscentos anos atrás. Nosso passado sempre foi visto como algo incômodo, e seus monumentos como um estorvo ao desenvolvimento da cidade.

 Na Europa, o centro histórico é considerado padrão insuperável de qualidade urbana. Morar no centro é um grande privilégio, ainda que as ruas sejam estreitas e que edifícios dos séculos XVI ou XVII não tenham playground, elevador ou garagem. O grande mérito da cidade histórica é sua compacidade, a sua forma coerente, habitável em escala humana como lugar de encontros, e não de uma multidão anônima. O reconhecimento de tal valor não é, como poder-se-ia pensar, fruto da erudição dos cidadãos, pois na Europa (ou pelo menos na Itália) o cidadão médio não é culto e não tem grande informação sobre os edifícios históricos. Mas ali existe um hábito da História - e consequentemente também de preservação. Assim como no Brasil existe uma "propaganda do novo", na Europa existe uma "propaganda do velho", que chega até a inibir projetos modernos de grande qualidade arquitetônica. O valor da História é uma espécie de "lugar comum" do qual os italianos têm grande orgulho. Eles mantêm uma relação muito próxima com a História, uma apropriação, eles habitam a História. Os edifícios antigos não são vistos como monumentos culturalmente importantes, porém inúteis. Eles estão prontos a ser habitados, tanto quanto prédios recém-construídos. Para isto foram sendo adaptados às necessidades de cada tempo, é verdade: a cidade histórica que vemos hoje é muito diferente de como era no século XVIII, apesar de os edifícios serem os mesmos. É uma cidade dotada de todos os confortos da vida moderna: luz elétrica, telefone, tevê a cabo, internet…

 A experiência européia nos ensina duas coisas: primeiro, que é possível modernizar sem destruir, e segundo, que o monumento pode ser vivido como um fator de enriquecimento da cidade, e não como obstáculo ao seu desenvolvimento.

 Com um terreno acidentado (morros), a umidade e o calor da cidade, os habitantes tinham sempre aquela sensação (desejo) de destruir aquele incômodo e construir algo novo, limpo e moderno, que conseguiria um ambiente melhor. Esses sucessivos construir e destruir, gradativamente, afastou a população do centro, comprometeu a apresentação estética, apagou da sociedade registros históricos (casarios, ruas, igrejas etc) e desumanizou aquela região. Tudo em nome da pseudo modernidade e da limpeza. A forma de comercialização dos produtos de primeira necessidade e a rotina dos próprios mercados do passado são exemplos deste sentimento que predominava e predomina até os dias de hoje. Os comerciantes prolongavam seu comércio pelas ruas da cidade para propaganda e para entrega das mercadorias provocando, com isso, aumento de resíduos provenientes das sobras dos alimentos que comercializava, nas ruas da cidade. Além disso, na medida que a população crescia junto com o comércio, criava-se uma sensação de desordem e sujeira com o aumento do lixo urbano, e com aumento de ruídos provenientes das propagandas dos ambulantes. O camelódromo da Rua Uruguaiana ilustra bem este cenário que nos dias de hoje pode ser muito bem administrado, mas, enquanto capital de um império e de uma república fica pouco recomendável para o convívio de nobres, políticos e burgueses abastados. Como exemplos, citamos (enxertos do livro “Mercados no Rio de Janeiro” de Samuel Gorberg e Sérgio Fridman):

 No trecho compreendido entre a Pça 15 de Novembro e a Rua da Alfândega, neste local na época do império do Brasil, que ficou conhecido como Praia do Peixe - da esquina do TelIes isto é, do canto da rua nomeada em 12 de janeiro de 1849 de Mercado, onde findava o cais do Largo do Palácio, até a Alfândega - foram instaladas barracas de madeira, cobertas de telha, onde se vendia o pescado, porém construídas sem ordem nem simetria (hoje, Rua do Mercado, final do Mergulhão da Pça XV, Pça do Mercado Velho, viaduto da Perimetral, Tribunal Marítimo e Cais Pharoux);

 O vice-rei Luiz de Vasconcellos, em 1789, depois de ter mandado calçar o Largo do Palácio (atual Praça 15 de Novembro ), construir o chafariz e o cais da mesma praça, ordenou que as barracas de peixe fossem reedificadas com regularidade e simetria. Entretanto, estavam localizadas próximas do Paço Imperial, e seus freqüentadores geravam tal algazarra que, em 1823, a Secretaria de Estado dos Negócios do Império oficiou ao Senado da Câmara a fim de que o mercado fosse removido para outro lugar;

 Por meio do edital de 3 de dezembro de 1834 da Câmara Municipal, o Mercado da Candelária surgiu da necessidade da criação de uma praça de mercado para a venda de peixe e outros gêneros de alimentação, que viesse substituir as antigas e arruinadas bancas de pescado, barracas de madeira construídas na ârea compreendida entre a Rua do Mercado e a Praça das Marinhas (atualmente, trata-se de toda área da Rua do Mercado, Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, Final do Mergulhão da Pça XV e entrada do Museu da Marinha);

 Caberia a Grandjean de Montigny a glória de projetar o edifício para o primeiro mercado digno desse nome na cidade do Rio de Janeiro. Nascido em 15 de julho de 1776, Auguste-Henri­Victor Grandjean de Montigny cedo demonstrou propensão para o desenho, tendo se graduado em arquitetura na Escola de Belas Artes de Paris. Veio para o Brasil com a Missão Artística Francesa, que chegou ao Rio de Janeiro em 26 de março de 1816. Pelo Decreto de 12 de agosto de 1816, Grandlean de Montigny recebeu o título de Professor de Arquitetura, tendo sido, com essa nomeação, o primeiro professor de arquitetura no Brasil. Uma das suas primeiras edificações, e que lhe deu grande renome, foi a sede da primeira Praça de Comércio, levantada no terreno compreendido entre o mar e a Rua do Sabão, cedido para esse fim, aos negociantes da cidade, por D. João VI. Inaugurado em 13 de maio de 1820, dia do aniversário do Rei, este prédio abrigou a Alfândega, posteriormente o Tribunal do Júri e atualmente a Casa França-Brasil;

 Mercado Municipal foi planejado para substituir o Mercado da Candelária, pois este já não apresentava as condições que a capital do país necessitava para o seu principal centro de abastecimento de gêneros alimentícios, tendo em vista que, independentemente de obras de reforma que fossem planejadas, a sua área era insuficiente para a demanda existente. Na busca de um local que permitisse a construção de um digno mercado, a Municipalidade direcionou suas atenções para o aterro que estava sendo executado na Praia de D. Manuel, resultante da construção do novo cais, desde o Cais Pharoux até a Ponta do Calabouço. Este cais havia sido projetado por André Rebouças, que o batizou de Cais Orleans, tendo a sua empresa, Companhia Docas de Pedro II conseguido em 15 de outubro de 1873, a concessão para a sua execução. Desdobramentos políticos acarretaram a encampação da Pedro II pelo Governo, assumindo este a execução do cais, com a denominação de DeI Vecchio. Em sessão extraordinária de 3 de janeiro de 1891, foram lidas na Câmara Municipal sete propostas para a construção de um mercado na Praia de D. Manuel, entre as quais a do engenheiro Nuno Alvares Pereira e Souza, sendo a sua considerada a mais vantajosa.

 O local escolhido para a construção do Mercado Municipal compreendia, na sua maior parte, do aterro da Praia de D. Manoel que estava sendo feito pelo Governo Federal, tendo a Prefeitura do Distrito Federal, visando a permutá-lo pela área ocupada pelo Mercado da Candelária e pavilhões da Praça das Marinhas e doca respectiva, assinado termo em 26 de dezembro de 1891 com a Diretoria do Contencioso do Tesouro Nacional, representada a Prefeitura pelo 1º Procurador dos Feitos da Fazenda Municipal, Dr. João Carneiro de Souza Bandeira e a Fazenda Federal pelo Diretor do Contencioso, Dr. Carlos Augusto Naylor. Com 22.500m2, esta área era um quadrado de 150 metros de lado, assim descrita: "é limitada ao norte pela linha do quadrado que corta o edifício do desinfetório e suas dependências; ao sul o Arsenal de Guerra; a leste pelo mar; seguindo uma linha ligeiramente inclinada à do cais e a oeste pelo Largo do Moura, seguindo o alinhamento da parte mutilada do edifício do desinfetório até encontrar o prolongamento da Rua do Trem, sob um ângulo de 145o formado pelo dito prolongamento e o lado quadrado demarcado que vai ter ao desinfetório, ficando o vértice do ângulo, de onde se deve contar os 150 metros de lado a 105 metros do alinhamento do lado direito da Rua da Batalha, olhando-se para o norte, compreendendo um quadrado de 150 metros de lado." Neste documento ficou estabelecido que o Governo da União não poderia utilizar a área da praça do Mercado da Candelária e pavilhões da Praça das Marinhas para mercado ou fim semelhante;

 Uma das primeiras providências demandadas para a construção do Mercado Municipal foi a demolição do chafariz do Largo do Moura (hoje, local onde, no governo do prefeito Saturnino Braga, foram erguidos os abrigos de ônibus estilizados de Oscar Niemayer formando o terminal rodoviário da Pça XV, atrás do Forum e próximo ao Museu Histórico Nacional). Este largo havia sido reduto da soldadesca, picadeiro, escola de capoeiragem clássica, campo de batalha entre Nagôas e Guaiamús, lavanderia pública e barata, e centro da fina flor da malandragem. Aí existia a forca, depois construíram o necrotério em 1873, o desinfetório e o Corpo de Saúde do Exército. Precisando abastecer o bairro da Misericórdia de água da Carioca, o conde de Rezende mandou construir; em 1794, um chafariz tendo, aos lados, tanques para lavadeiras;

 Hoje, resta, apenas, um torreão deste Mercado Municipal mantido erguido. Trata-se do Restaurante Albamar, bem próximo das instalações da Polícia Federal num centro cultural daquela instituição;

 E, finalmente, durante o governo de Carlos Lacerda, foi construída a via perimetral cujo viaduto “rasgou” 200 anos de história, pois, sua extensão que vai das instalações da Marinha do Brasil no Cais dos Mineiros até o seu início/término no clube da Aeronáutica e/ou III COMAR na Av. Alfred Agache, passando pela Pça do Mercado Velho, Pça XV, estação das Barcas, estacionamentos, terminal de ônibus e instalações da Polícia Federal, compreende um espaço de grandes acontecimentos históricos, sem contar que trata-se do berço da história da sociedade brasileira.

 Entre todos os governantes (municipal, estadual e federal) do Rio de Janeiro, Pereira Passos deve ser a exceção positiva, pois, proporcionou a “Belle Époque”. Muitos são os críticos do intervencionismo de Pereira Passos, rotulando-o, indiretamente, de destruidor da verdadeira brasilidade dos morros, dos cortiços e do casario que demoliu para dar lugar a um Rio de Janeiro artificialmente “afrancesado”, segundo estes críticos. Estes críticos ficam mais ferrenhos e acalorados quando se é lembrado do trauma causado pela expulsão de populações que viviam naqueles insalubres casarios e sujos cortiços. Com o início do processo de esvaziamento econômico a que o Rio de Janeiro experimenta até os dias de hoje, simultaneamente, iniciou-se a degradação urbana do centro que a mudança da capital para Brasília aceleraria. Carlos Lacerda, com sua megalomania crônica tratou de agravar este processo de destruição e construção, de forma mais agressiva. Tudo, em nome do progresso e de uma visão futurista para uma super Guanabara (hoje, cidade do Rio de Janeiro) moderna, próspera e industrializada.

 Hoje com os avanços do conhecimento humano, podemos concluir que tratou-se, pura e simplesmente, de agressões ao meio ambiente daquela região e da nossa história. Por exemplo, quanta agressão a história da nação este viaduto da Perimetral causou e ainda causa, mesmo considerando todo o benefício viário que representa: O início desta ponte, próximo ao Clube da Aeronáutica e ao Museu Histórico Nacional, tornou inacessível uma área que foi porta de entrada internacional do país até o início do século XX;

 Destruiu o Mercado Municipal, obra do nosso Pereira Passos que foi considerado algo arrojado, na época, que resolveria todos os problemas das atividades comerciais do distrito federal e poder-se-ia considerar como o maior centro atacadista do Brasil recém republicano; Obrigou a remoção do chafariz monumental do francês Marthurim Moreau construido na fundição Val d’Osne, na França, para a praça da bandeira (hoje, este chafariz encontra-se na Pça Mahatma Gandi na Cinelândia); comprometeu e destruiu a área do antigo Mercado da Candelária, um centro de comércio do século XIX que faz parte da história imperial do Brasil... enfim, já é público e notório que a solução para os acessos por transporte para os grandes centros urbanos, passa pela adesão ao transporte público e a repulsão ao transporte de passeio (carro), logo, esse viaduto causa mais mal que bem.