Tesouros!
Revitalização do centro do Rio.
O centro do Rio de Janeiro guarda a memória nacional do início deste país.
Revitalizá-lo é mais que uma obrigação para uma sociedade que deseja almejar o patamar
das mais desenvolvidas no mundo. Maltratado, descaracterizado e, as vezes, abandonado,
o centro do Rio sofreu várias intervenções desde o primeiro reinado até o século
XX, sempre com o pretexto de mudar para melhor, mais moderno, mais limpo, mais saudável
etc... Os aterramentos da praia D. Manuel (hoje, a área que vai do III Comar no
final da Av. Gen Justo até a estação das barcas na Pça XV, percorrendo a Av. Alfred
Agache) durante a monarquia brasileira, a descaracterização da Pça D. Pedro II transformada
em Pça XV na república velha, a demolição do Morro do Castelo durante toda 1º metade
do século XX, a demolição do Mercado da Candelária no início da república, a descaracterização
da área de passeio da Pça XV com a construção do viaduto da Perimetral durante o
governo do Carlos Lacerda, a demolição do Mercado Municipal também graças ao Lacerda
etc...enfim, sempre, a elite tinha aquela impressão de incômodo com a higiene e
o que se chamava de atraso.
A palavra "monumento" vem do latim monere, que significa "advertir". Monumento
é então tudo que tem a função de lembrar, de advertir o passante sobre alguma coisa
que desejamos que seja lembrada.
O modo de fazer urbanismo apagando os estágios precedentes da construção da
cidade encontra raízes no próprio desenvolvimento urbano do Brasil, onde cada fase
procurou esconder as anteriores, num esforço consciente, rasgando inteiras porções
de cidade consolidada para abrir avenidas e até desmontando morros, violentando
a estrutura urbana existente. Cria-se assim uma cultura de desvalorização ou mesmo
negação do passado, como se o considerássemos vergonhoso.
É um país sem memória, que nunca sentiu a própria História como própria. Daí
o descaso em relação ao passado, a facilidade com que se destroém seus testemunhos.
E a eterna propaganda do país jovem, do país do futuro, em que tudo ainda está por
ser feito. A regra geral então é reconstruir sempre, sem se preocupar com os traços
cada vez mais escassos do passado.
Uma cidade que apaga as fases precedentes se empobrece - a coexistência de
vários períodos históricos permite uma leitura da estratificação, que enriquece
a experiência sensorial do observador na cidade. E assim olhamos as fotografias
do Rio do início do século e suspiramos pela Avenida Central, por Copacabana cheia
de casas em um divertido estilo eclético e por outros recantos da cidade já desaparecidos.
Hoje é necessário ir a Paris para ver algo parecido, pois do que tivemos nas mãos
já não sobra quase nada. E se por um lado o brasileiro não se preocupa em conhecer
e preservar o que há de "histórico" e bonito no próprio país, por outro está sempre
pronto a consumir avidamente a História alheia - como se a História fosse algo que
se fez do outro lado do mar há seiscentos anos atrás. Nosso passado sempre foi visto
como algo incômodo, e seus monumentos como um estorvo ao desenvolvimento da cidade.
Na Europa, o centro histórico é considerado padrão insuperável de qualidade
urbana. Morar no centro é um grande privilégio, ainda que as ruas sejam estreitas
e que edifícios dos séculos XVI ou XVII não tenham playground, elevador ou garagem.
O grande mérito da cidade histórica é sua compacidade, a sua forma coerente, habitável
em escala humana como lugar de encontros, e não de uma multidão anônima. O reconhecimento
de tal valor não é, como poder-se-ia pensar, fruto da erudição dos cidadãos, pois
na Europa (ou pelo menos na Itália) o cidadão médio não é culto e não tem grande
informação sobre os edifícios históricos. Mas ali existe um hábito da História -
e consequentemente também de preservação. Assim como no Brasil existe uma "propaganda
do novo", na Europa existe uma "propaganda do velho", que chega até a inibir projetos
modernos de grande qualidade arquitetônica. O valor da História é uma espécie de
"lugar comum" do qual os italianos têm grande orgulho. Eles mantêm uma relação muito
próxima com a História, uma apropriação, eles habitam a História. Os edifícios antigos
não são vistos como monumentos culturalmente importantes, porém inúteis. Eles estão
prontos a ser habitados, tanto quanto prédios recém-construídos. Para isto foram
sendo adaptados às necessidades de cada tempo, é verdade: a cidade histórica que
vemos hoje é muito diferente de como era no século XVIII, apesar de os edifícios
serem os mesmos. É uma cidade dotada de todos os confortos da vida moderna: luz
elétrica, telefone, tevê a cabo, internet…
A experiência européia nos ensina duas coisas: primeiro, que é possível modernizar
sem destruir, e segundo, que o monumento pode ser vivido como um fator de enriquecimento
da cidade, e não como obstáculo ao seu desenvolvimento.
Com um terreno acidentado (morros), a umidade e o calor da cidade, os habitantes
tinham sempre aquela sensação (desejo) de destruir aquele incômodo e construir algo
novo, limpo e moderno, que conseguiria um ambiente melhor. Esses sucessivos construir
e destruir, gradativamente, afastou a população do centro, comprometeu a apresentação
estética, apagou da sociedade registros históricos (casarios, ruas, igrejas etc)
e desumanizou aquela região. Tudo em nome da pseudo modernidade e da limpeza. A
forma de comercialização dos produtos de primeira necessidade e a rotina dos próprios
mercados do passado são exemplos deste sentimento que predominava e predomina até
os dias de hoje. Os comerciantes prolongavam seu comércio pelas ruas da cidade para
propaganda e para entrega das mercadorias provocando, com isso, aumento de resíduos
provenientes das sobras dos alimentos que comercializava, nas ruas da cidade. Além
disso, na medida que a população crescia junto com o comércio, criava-se uma sensação
de desordem e sujeira com o aumento do lixo urbano, e com aumento de ruídos provenientes
das propagandas dos ambulantes. O camelódromo da Rua Uruguaiana ilustra bem este
cenário que nos dias de hoje pode ser muito bem administrado, mas, enquanto capital
de um império e de uma república fica pouco recomendável para o convívio de nobres,
políticos e burgueses abastados. Como exemplos, citamos (enxertos do livro “Mercados
no Rio de Janeiro” de Samuel Gorberg e Sérgio Fridman):
No trecho compreendido entre a Pça 15 de Novembro e a Rua da Alfândega, neste
local na época do império do Brasil, que ficou conhecido como Praia do Peixe - da
esquina do TelIes isto é, do canto da rua nomeada em 12 de janeiro de 1849 de Mercado,
onde findava o cais do Largo do Palácio, até a Alfândega - foram instaladas barracas
de madeira, cobertas de telha, onde se vendia o pescado, porém construídas sem ordem
nem simetria (hoje, Rua do Mercado, final do Mergulhão da Pça XV, Pça do Mercado
Velho, viaduto da Perimetral, Tribunal Marítimo e Cais Pharoux);
O vice-rei Luiz de Vasconcellos, em 1789, depois de ter mandado calçar o Largo
do Palácio (atual Praça 15 de Novembro ), construir o chafariz e o cais da mesma
praça, ordenou que as barracas de peixe fossem reedificadas com regularidade e simetria.
Entretanto, estavam localizadas próximas do Paço Imperial, e seus freqüentadores
geravam tal algazarra que, em 1823, a Secretaria de Estado dos Negócios do Império
oficiou ao Senado da Câmara a fim de que o mercado fosse removido para outro lugar;
Por meio do edital de 3 de dezembro de 1834 da Câmara Municipal, o Mercado
da Candelária surgiu da necessidade da criação de uma praça de mercado para a venda
de peixe e outros gêneros de alimentação, que viesse substituir as antigas e arruinadas
bancas de pescado, barracas de madeira construídas na ârea compreendida entre a
Rua do Mercado e a Praça das Marinhas (atualmente, trata-se de toda área da Rua
do Mercado, Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, Final do Mergulhão da Pça XV e entrada
do Museu da Marinha);
Caberia a Grandjean de Montigny a glória de projetar o edifício para o primeiro
mercado digno desse nome na cidade do Rio de Janeiro. Nascido em 15 de julho de
1776, Auguste-HenriVictor Grandjean de Montigny cedo demonstrou propensão para
o desenho, tendo se graduado em arquitetura na Escola de Belas Artes de Paris. Veio
para o Brasil com a Missão Artística Francesa, que chegou ao Rio de Janeiro em 26
de março de 1816. Pelo Decreto de 12 de agosto de 1816, Grandlean de Montigny recebeu
o título de Professor de Arquitetura, tendo sido, com essa nomeação, o primeiro
professor de arquitetura no Brasil. Uma das suas primeiras edificações, e que lhe
deu grande renome, foi a sede da primeira Praça de Comércio, levantada no terreno
compreendido entre o mar e a Rua do Sabão, cedido para esse fim, aos negociantes
da cidade, por D. João VI. Inaugurado em 13 de maio de 1820, dia do aniversário
do Rei, este prédio abrigou a Alfândega, posteriormente o Tribunal do Júri e atualmente
a Casa França-Brasil;
Mercado Municipal foi planejado para substituir o Mercado da Candelária, pois
este já não apresentava as condições que a capital do país necessitava para o seu
principal centro de abastecimento de gêneros alimentícios, tendo em vista que, independentemente
de obras de reforma que fossem planejadas, a sua área era insuficiente para a demanda
existente. Na busca de um local que permitisse a construção de um digno mercado,
a Municipalidade direcionou suas atenções para o aterro que estava sendo executado
na Praia de D. Manuel, resultante da construção do novo cais, desde o Cais Pharoux
até a Ponta do Calabouço. Este cais havia sido projetado por André Rebouças, que
o batizou de Cais Orleans, tendo a sua empresa, Companhia Docas de Pedro II conseguido
em 15 de outubro de 1873, a concessão para a sua execução. Desdobramentos políticos
acarretaram a encampação da Pedro II pelo Governo, assumindo este a execução do
cais, com a denominação de DeI Vecchio. Em sessão extraordinária de 3 de janeiro
de 1891, foram lidas na Câmara Municipal sete propostas para a construção de um
mercado na Praia de D. Manuel, entre as quais a do engenheiro Nuno Alvares Pereira
e Souza, sendo a sua considerada a mais vantajosa.
O local escolhido para a construção do Mercado Municipal compreendia, na sua
maior parte, do aterro da Praia de D. Manoel que estava sendo feito pelo Governo
Federal, tendo a Prefeitura do Distrito Federal, visando a permutá-lo pela área
ocupada pelo Mercado da Candelária e pavilhões da Praça das Marinhas e doca respectiva,
assinado termo em 26 de dezembro de 1891 com a Diretoria do Contencioso do Tesouro
Nacional, representada a Prefeitura pelo 1º Procurador dos Feitos da Fazenda Municipal,
Dr. João Carneiro de Souza Bandeira e a Fazenda Federal pelo Diretor do Contencioso,
Dr. Carlos Augusto Naylor. Com 22.500m2, esta área era um quadrado de 150 metros
de lado, assim descrita: "é limitada ao norte pela linha do quadrado que corta o
edifício do desinfetório e suas dependências; ao sul o Arsenal de Guerra; a leste
pelo mar; seguindo uma linha ligeiramente inclinada à do cais e a oeste pelo Largo
do Moura, seguindo o alinhamento da parte mutilada do edifício do desinfetório até
encontrar o prolongamento da Rua do Trem, sob um ângulo de 145o formado pelo dito
prolongamento e o lado quadrado demarcado que vai ter ao desinfetório, ficando o
vértice do ângulo, de onde se deve contar os 150 metros de lado a 105 metros do
alinhamento do lado direito da Rua da Batalha, olhando-se para o norte, compreendendo
um quadrado de 150 metros de lado." Neste documento ficou estabelecido que o Governo
da União não poderia utilizar a área da praça do Mercado da Candelária e pavilhões
da Praça das Marinhas para mercado ou fim semelhante;
Uma das primeiras providências demandadas para a construção do Mercado Municipal
foi a demolição do chafariz do Largo do Moura (hoje, local onde, no governo do prefeito
Saturnino Braga, foram erguidos os abrigos de ônibus estilizados de Oscar Niemayer
formando o terminal rodoviário da Pça XV, atrás do Forum e próximo ao Museu Histórico
Nacional). Este largo havia sido reduto da soldadesca, picadeiro, escola de capoeiragem
clássica, campo de batalha entre Nagôas e Guaiamús, lavanderia pública e barata,
e centro da fina flor da malandragem. Aí existia a forca, depois construíram o necrotério
em 1873, o desinfetório e o Corpo de Saúde do Exército. Precisando abastecer o bairro
da Misericórdia de água da Carioca, o conde de Rezende mandou construir; em 1794,
um chafariz tendo, aos lados, tanques para lavadeiras;
Hoje, resta, apenas, um torreão deste Mercado Municipal mantido erguido. Trata-se
do Restaurante Albamar, bem próximo das instalações da Polícia Federal num centro
cultural daquela instituição;
E, finalmente, durante o governo de Carlos Lacerda, foi construída a via perimetral
cujo viaduto “rasgou” 200 anos de história, pois, sua extensão que vai das instalações
da Marinha do Brasil no Cais dos Mineiros até o seu início/término no clube da Aeronáutica
e/ou III COMAR na Av. Alfred Agache, passando pela Pça do Mercado Velho, Pça XV,
estação das Barcas, estacionamentos, terminal de ônibus e instalações da Polícia
Federal, compreende um espaço de grandes acontecimentos históricos, sem contar que
trata-se do berço da história da sociedade brasileira.
Entre todos os governantes (municipal, estadual e federal) do Rio de Janeiro,
Pereira Passos deve ser a exceção positiva, pois, proporcionou a “Belle Époque”.
Muitos são os críticos do intervencionismo de Pereira Passos, rotulando-o, indiretamente,
de destruidor da verdadeira brasilidade dos morros, dos cortiços e do casario que
demoliu para dar lugar a um Rio de Janeiro artificialmente “afrancesado”, segundo
estes críticos. Estes críticos ficam mais ferrenhos e acalorados quando se é lembrado
do trauma causado pela expulsão de populações que viviam naqueles insalubres casarios
e sujos cortiços. Com o início do processo de esvaziamento econômico a que o Rio
de Janeiro experimenta até os dias de hoje, simultaneamente, iniciou-se a degradação
urbana do centro que a mudança da capital para Brasília aceleraria. Carlos Lacerda,
com sua megalomania crônica tratou de agravar este processo de destruição e construção,
de forma mais agressiva. Tudo, em nome do progresso e de uma visão futurista para
uma super Guanabara (hoje, cidade do Rio de Janeiro) moderna, próspera e industrializada.
Hoje com os avanços do conhecimento humano, podemos concluir que tratou-se,
pura e simplesmente, de agressões ao meio ambiente daquela região e da nossa história.
Por exemplo, quanta agressão a história da nação este viaduto da Perimetral causou
e ainda causa, mesmo considerando todo o benefício viário que representa: O início
desta ponte, próximo ao Clube da Aeronáutica e ao Museu Histórico Nacional, tornou
inacessível uma área que foi porta de entrada internacional do país até o início
do século XX;
Destruiu o Mercado Municipal, obra do nosso Pereira Passos que foi considerado
algo arrojado, na época, que resolveria todos os problemas das atividades comerciais
do distrito federal e poder-se-ia considerar como o maior centro atacadista do Brasil
recém republicano; Obrigou a remoção do chafariz monumental do francês Marthurim
Moreau construido na fundição Val d’Osne, na França, para a praça da bandeira (hoje,
este chafariz encontra-se na Pça Mahatma Gandi na Cinelândia); comprometeu e destruiu
a área do antigo Mercado da Candelária, um centro de comércio do século XIX que
faz parte da história imperial do Brasil... enfim, já é público e notório que a
solução para os acessos por transporte para os grandes centros urbanos, passa pela
adesão ao transporte público e a repulsão ao transporte de passeio (carro), logo,
esse viaduto causa mais mal que bem. |